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"Olhe, você não tem um odor muito agradável ..."

Sexta-feira, 24.02.12

Sabem aqueles dias em que acordamos mal dispostos e parece que tudo corre mal, e quando nos fazemos à estrada as coisas ainda começam a
correr pior?

Bem, eu tive um desses dias aqui há uns tempos… Contudo – e como não podia deixar de ser – houve uma daquelas histórias de autocarro que fazem uma pessoa rebolar de tanto rir.

 

Querem ouvir?

 

Mesmo que não queiram, eu vou contar.

 

Saí de casa atrasada – ou melhor, atrasadíssima – a correr desvairada para ver se não perdia (novamente) o autocarro. Não me perguntem como, mas sempre consegui chegar a horas ao autocarro.

Mal me sentei percebi que me se tinha colado pastilha elástica às minhas calças: a espumar pela boca de tanta raiva, respirei fundo aíumas três vezes e tentei manter a calma.

 

 Até aqui nada de muito extraordinário,porém o mais caricato ainda estava para acontecer.

 

Entra no autocarro um daqueles adolescentes com um ar super rebelde com phones nos ouvidos  no volume máximo – desnecessário seja dizer que eu conseguia ouvir no meu banco a música que a criatura tinha aos gritos nos ouvidos.

 

Continuamos no entanto sem ver nada de caricato, isto até ao dito adolescente se sentar de frente com uma senhora muito bem arranjada, muito
asseada, e colocar os pés no banco à frente da tal mulher.

Estava um calor abrasador e o sol raiava com extrema intensidade; as pessoas apresentavam faces extremamente coradas, quando não, gotículas de suor a caírem-lhe pelo rosto.

Perdida nos meus pensamentos sinto-me despertar pela conversa, ou melhor, pelo início da discussão que se travava ali mesmo ao meu lado.

- Olhe menino, peço imensa desculpa, mas não admito que coloque os pés aqui exactamente ao meu lado.

-E não admite porquê? – questionou o adolescente quase aos gritos devido ao alto volume dos seus headphones.

-É assim querido, em primeiro lugar o seu tom de voz não me parece o mais adequado, em segundo lugar é falta de educação colocar os pés , e
em terceiro lugar o cheiro dos seus pés não é o mais agradável.

-Está a insinuar que os meus pés cheiram mal? – pergunta o adolescente já mais irritado.

-Olhe se não quer que diga que eles cheiram mal, eu não digo, mas o que é certo, é que bem não cheiram… De modo algum!

- Mas o que a senhora diz a mim não me incomoda, e a mim sempre me ensinaram que os incomodados é que se devem retirar –vociferou o adolescente.

- Pois bem – solucionou a mulher – proponho que o menino se sente aqui ao meu lado, e coloque os pés no banco à minha frente: você fica na mesma agradado, e é um grande favor que me faz, sem esquecer que é um acto que não lhe fica nada mal.

O miúdo lá decidiu aceitar a proposta da senhora e trocou de lugar; pouco depois é ele a interpela-la:

-Olhe a senhora liberta um odor da sua cabeça que me dá comichões!

-Comichões? Ora essa! Por quem me toma? Eu tomo banho regularmente, e não vejo de que modo o odor da minha cabeça lhe poderia dar comichões – - justificou-se a senhora.

-Pois, eu também não sei como isso acontece, mas a verdade é que me sinto incomodado. Aliás, recuso-me a prosseguir viagem se continuar a sentir este cheiro. Porque não troca de lugar comigo? Pode ser que esta aragem que vem da janela atenue esse horroroso odor, e consigamos manter uma viagem tranquila.

-Olhe – principiou a mulher- não é que eu pense que a minha cabeça cheira mal, mas para evitar escândalos eu troco de lugar consigo.

 

E lá trocaram os dois de lugar.

 

Não tardou a ser a mulher novamente a puxar assunto com o rapaz:

- Os seus pais deixam-no andar com esse penteado? Olhe que se fosse meu filho eu não o permitiria.

Todo o autocarro já ria e esperava a investida seguinte: aquilo já não se tratava de um caso normal do quotidiano, mas de uma picardia pateta.

-Olhe e o seu marido deixa-a andar com esse busso tão grande? Olhe que se fosse minha mulher eu não o permitiria.

-Insolente!

Este remate do rapaz tinha sido mesmo muito forte, e eu que já ia sair na paragem a seguir nem tempo tinha para ver o fim daquela paródia.

Quando estava mesmo para sair ouço a senhora virar-se para mim: “Oh não” pensei eu “Agora sou a próxima vítima.”

- Olhe menina peço imensa desculpa…

-Sim, que foi? – resmunguei eu.

-Deixou cair um maço de lenços – respondeu com ar de quem gostava de me ter chamado “Malcriadona!” .

-Obrigada – tentei eu remediar-me.

 

O rapaz olhou para mim sorridente e mostrou-me o polegar, deve ter pensado que encontrou uma aliada.

 

(História escrita por Daniela Leal para a Fábrica de Histórias).

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publicado por CoisasDeTudo às 17:58

As estações da vida

Sábado, 04.02.12

Costuma dizer-se que as pessoas que ficam sozinhas, ou porque não casaram, ou porque os seus familiares faleceram, ou por qualquer outro motivo, são infelizes: isto porque um dos maiores medos do ser humano, é esse mesmo: ficar na solidão.

Aquilo que por vezes nos parece absurdo, é todavia, uma grande verdade: seja quem for, num momento ou outro da vida, sente sempre que
os outros o abandonaram! Aliás, mais que os outros – sente até que tudo e todos o abandonaram.

Ficar sozinho quando não é uma opção, é uma imposição…


Principalmente na nossa juventude, talvez até mais na adolescência, diversas vezes dizemos que queremos ficar sozinhos, depois choramos porque nos sentimos sozinhos, e acusamos os outros de nos terem deixado assim.

Passado alguns anos, já somos pessoas diferentes, e temos tendência a querer que todos nos rodeiem… Todo o tempo que passamos com os outros nos
parece pouco: vamos a todas as festas, não perdemos uma única oportunidade para sair e as multidões são o nosso mundo.

Mais algum tempo volvido, e vamos aprendendo o valor do silêncio e do descanso: cansamo-nos de toda aquela euforia de outrora,sentimo-nos muitas vezes “deslocados” e pensamos em mudar de vida – mas já perdemos a euforia de outrora! O que tínhamos a fazer de novo e inovador  achamos que já está feito, e que agora é tarde demais. Subimos mais uns degraus na escada da vida e procuramos não um tempo sozinhos, mas sim um tempo só connosco mesmos. É uma fase profunda, de reflexão, onde nos procuramos afastar da monotonia, apesar de já termos mergulhado nela.

Por vezes, por volta desta faixa etária volta aquele entusiasmo da juventude – pode até tentar-se viver essa euforia por algum tempo – mas depois apercebemo-nos que o nosso tempo já passou, e que a juventude já não passa de retratos de um passado perdido.

De uma determinada idade em diante, sentimo-nos já como meros espectadores da vida: como se estivéssemos sentados numa qualquer cadeira
num café a olhar os outros, a ver a vida passar, a ver que por muito que se tente contrariar a vida, todos acabamos por fazer mais ou menos o mesmo
percurso.

Aí sim, vem realmente o medo da solidão – já não é o medo de se viver sem ninguém – mas a angústia de se poder morrer sozinho.

Damos gritos no silêncio, choramos sem lágrimas à vista, e ainda assim às vezes conseguem ter a indecência de nos abandonarem…

Apesar de vermos que todos têm um percurso muito idêntico, o certo é que todos se esquecem que passarão pelo Outono da vida, e que precisarão dos outros mais do que nunca, para não caírem sozinhos num abismo chamado solidão!

 

(Texto produzido por Daniela Leal para a Fábrica de Histórias).

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publicado por CoisasDeTudo às 12:35





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