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As estações da vida

Sábado, 04.02.12

Costuma dizer-se que as pessoas que ficam sozinhas, ou porque não casaram, ou porque os seus familiares faleceram, ou por qualquer outro motivo, são infelizes: isto porque um dos maiores medos do ser humano, é esse mesmo: ficar na solidão.

Aquilo que por vezes nos parece absurdo, é todavia, uma grande verdade: seja quem for, num momento ou outro da vida, sente sempre que
os outros o abandonaram! Aliás, mais que os outros – sente até que tudo e todos o abandonaram.

Ficar sozinho quando não é uma opção, é uma imposição…


Principalmente na nossa juventude, talvez até mais na adolescência, diversas vezes dizemos que queremos ficar sozinhos, depois choramos porque nos sentimos sozinhos, e acusamos os outros de nos terem deixado assim.

Passado alguns anos, já somos pessoas diferentes, e temos tendência a querer que todos nos rodeiem… Todo o tempo que passamos com os outros nos
parece pouco: vamos a todas as festas, não perdemos uma única oportunidade para sair e as multidões são o nosso mundo.

Mais algum tempo volvido, e vamos aprendendo o valor do silêncio e do descanso: cansamo-nos de toda aquela euforia de outrora,sentimo-nos muitas vezes “deslocados” e pensamos em mudar de vida – mas já perdemos a euforia de outrora! O que tínhamos a fazer de novo e inovador  achamos que já está feito, e que agora é tarde demais. Subimos mais uns degraus na escada da vida e procuramos não um tempo sozinhos, mas sim um tempo só connosco mesmos. É uma fase profunda, de reflexão, onde nos procuramos afastar da monotonia, apesar de já termos mergulhado nela.

Por vezes, por volta desta faixa etária volta aquele entusiasmo da juventude – pode até tentar-se viver essa euforia por algum tempo – mas depois apercebemo-nos que o nosso tempo já passou, e que a juventude já não passa de retratos de um passado perdido.

De uma determinada idade em diante, sentimo-nos já como meros espectadores da vida: como se estivéssemos sentados numa qualquer cadeira
num café a olhar os outros, a ver a vida passar, a ver que por muito que se tente contrariar a vida, todos acabamos por fazer mais ou menos o mesmo
percurso.

Aí sim, vem realmente o medo da solidão – já não é o medo de se viver sem ninguém – mas a angústia de se poder morrer sozinho.

Damos gritos no silêncio, choramos sem lágrimas à vista, e ainda assim às vezes conseguem ter a indecência de nos abandonarem…

Apesar de vermos que todos têm um percurso muito idêntico, o certo é que todos se esquecem que passarão pelo Outono da vida, e que precisarão dos outros mais do que nunca, para não caírem sozinhos num abismo chamado solidão!

 

(Texto produzido por Daniela Leal para a Fábrica de Histórias).

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publicado por CoisasDeTudo às 12:35

Certo dia

Quarta-feira, 25.01.12

Aqui está uma história que me pediram para escrever e eu não resisti:

 

"Embora possa parecer que não, há sempre uma altura na vida que todos nos questionamos sobre onde estarão os nossos amigos. Costuma
dizer-se que estes são para as ocasiões, mas o certo é que diversas vezes parecemos necessitar deles para nos apoiarem e não encontramos nada mais do que um lugar vazio.

Um certo dia acordei e fiquei deitado na cama de olhos bem abertos e fixos num qualquer ponto na parede, a pensar no que sou, o que faço e em quem tenho de importante na minha vida.

Talvez nunca tenha pensado nisto profundamente, ou simplesmente seja quase um cliché refletir sobre estas questões,  um tudo-nada filosóficas, de vez em quando.

Como jovem que sou, tento ter esperança neste lugar que me apresentaram como sendo o mundo onde teria que viver, contudo vou constatando
ao longo do meu percurso, que a diferença entre o que vejo e um mundo melhor, parte de mim, da minha iniciativa – aliás, se cada um tomasse as rédeas para construir um sítio melhor para se viver, desencadear-se-ia uma ação conjunta sem precedentes, que levaria a uma evolução nunca antes vista, sequer imaginada.

Aqui, portanto, entra a importância dos amigos e das relações pessoais.

Ao contrário do que muitos podem pensar a amizade não se valoriza pelo tempo a que existe, ou pela quantidade de coisas que fazemos em prol do bem-estar do nosso amigo: quando se quantifica os sentimentos eles já perderam o seu valor. Algo que ninguém devia esquecer.

Sem dúvida de que eu sou apologista de que amigos há muito poucos, mas amiúde, dou comigo a pensar se não profiro esta frase por “exigir” demais
dos outros… Afinal nós procuramos amigos ou a perfeição que não possuímos?

 

Quando um amigo nosso faz algo errado (apesar de já ter feito imensas coisas certas), somos diversas vezes os primeiros a apontar-lhe o
dedo…

Se por algum motivo nos mente, apesar de ter dito milhões de verdades até esse momento, rotulamo-lo de mentiroso e depois a relação nunca mais fica igual…

Chegamos até ao ponto de sermos hipócritas a um nível tal, que consideramos como uma das nossas virtudes ser “amigo do nosso amigo”! Se somos amigos de quem é nosso amigo, podemos considerar isso uma virtude? Não, simplesmente estamos a retribuir a amizade que outra pessoa nos oferece, o que até faz transparecer que estamos a fazer muito pouco…

Estava eu de tal forma absorto nestes pensamentos e questões, que me assustei quando ouvi um barulho: era o maldito telemóvel a tocar.

Primeiro pensei em não atender, mas quando vi que era o meu chefe achei melhor fazê-lo, não fosse o homem enervar-se seriamente. (Peço desde já desculpas se no início vos fiz pensar que era um jovem saído da adolescência, apesar de às vezes parecer isso, sou na verdade um homem de 35
anos mas muito jovem de espírito, acreditem!).

 

Graça de Deus ou seja o que for, o certo é que o meu chefe desligou a chamada: “Melhor para mim”, pensei.

Fico sinceramente irritado quando me incomodam do trabalho ao fim-de-semana – já não chega ter um contrato a termo, e um salário que é uma miséria ainda tem que se fazer horas extraordinárias- que trabalho fabuloso que é o meu!

Quando pensava que já não teria mais nada a incomodar o tempo que destinei para as minhas questões filosóficas, eis que tocam à
campainha. A primeira coisa que pensei foi: “É a vizinha do lado a perguntar se lhe posso emprestar um bocadinho de açúcar, portanto, não vou abrir!” Todavia comecei a ouvir a voz de um amigo meu- perdão, do meu melhor amigo- a chamar por mim.

 

Apressei-me a chegar até à porta e fui desde logo interpelado pelo meu amigo:

- Então rapaz, ainda na cama a estas horas? Se trinta e cinco anos não chegam para ter juízo, então não sei quando vais assentar miúdo!

- Deixa-te lá disso Gervásio, entra e senta-te ali no sofá…

 

O meu amigo corou um pouco. Nunca gostou do nome Gervásio, por isso lhe chamávamos de “Gé” mas naquele momento, e sem saber como, aquela
palavra saiu-me sem que eu tivesse conseguido sequer pensar nela. Mas ele não se ofenderia- há tantas coisas no mundo com que nos podemos ofender, que uma pequena lacuna de um amigo não entra nesse grupo.

Contudo, e para grande espanto meu, o Gé recusou o convite:

- Nem penses… Com um dia lindo destes vamos tomar um café à esplanada ali na esquina e aproveito para comprar tabaco que ando com o maço
vazio.

- Não me apetecia nada sair de casa…

- Comigo não há apetites pá, arranja-te rápido que não tenho a vida toda para esperar por ti!

 

Sorri.

 

O Gé sabia sempre como fazer-me sorrir: dizia a coisa certa na hora certa, da forma que só ele sabia; deste modo, imensas vezes me convencia as fazer coisas, que se fosse outra qualquer criatura a lançar-me o convite eu nunca aceitaria.

Quando cheguei à sala já pronto para sair, olhou-me com um sorriso e exclamou:

- Finalmente! Tanto tempo para isso - bateu-me nas costas-Vamos lá então…

Enquanto saía de casa com o meu melhor amigo, pensava para comigo que já havia encontrado a resposta a todas as minhas questões. Ri-me até da minha inocência ao refletir sobre tais items, mas o certo é que o valor da amizade caminhava ali ao meu lado, ansioso por ir tomar um café e comprar um maço de Marlboro.

Às vezes não precisamos de grandes gestos para entendermos o valor de uma amizade: ser a única pessoa capaz de nos levantar da cama e tirar
de casa, chega perfeitamente!"

 

(História totalmente fictícia da autoria de Daniela Leal).

 

 

 

 

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publicado por CoisasDeTudo às 20:47





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